SAUDAÇÕES INCOMUNS



Valci Melo


Car@s,

Paz e bem!

Mais um ano chega ao fim e muitas são as manifestações de bons desejos. Talvez em nenhuma outra época do ano sejam-nos direcionados tantos anseios de coisas boas quanto no Natal e no Final de Ano - inclusive por pessoas que nem as conhecemos.

Tento me convencer, embora não seja fácil, de que tal prática não é apenas a expressão automática de velhos costumes, na maioria das vezes, desprovida do real interesse no bem estar do outro. Chego a pensar assim pelo fato de que nem sempre consigo - e penso que não seja o único - visualizar muita coerência entre o bem desejado neste período e as ações praticadas pelas mesmas pessoas durante o ano que passou e o novo que se inicia. É como se nossos desejos fossem entidades com vida própria e portadores da mágica capacidade de tornarem-se concretos sem e até contra nós.

E como não é assim que a vida se desenvolve e a História é construída; como acredito que nossas ações (e omissões) têm implicações positivas e/ou negativas não apenas nas nossas próprias vidas, mas também, nas vidas de pessoas que muitas vezes nem conhecemos, limito-me a desejar a vocês apenas aquilo que sinceramente espero de 2013 para tod@s: que ele seja capaz de nos ajudar a enfrentar todo e qualquer tipo de alienação e nos fortaleça na luta e na construção cotidiana de uma sociedade efetivamente humana.

Que assim seja!

QUEM TRABALHA DEUS AJUDA


Valci Melo
valcimelo@hotmail.com
facebook.com.br/valcimelo.al
  
            Eram três horas da madrugada. Acordou-se com os galos da redondeza disputando o título de maior cantador. "Bem que poderia dormir um pouco mais, até porque é domingo!" - pensou consigo mesmo. Porém, logo se lembra das obrigações: “Sim, é domingo, mas se não levantar logo para cuidar nos afazeres... Se ficar de boa vida...” – resmungou.
Ganhou forças, meteu dos pés, cumpriu sua devoção com três sinais do cristão acompanhado de palavras meio que automáticas, sentou-se aos pés da cama provocando certa chiadeira no colchão de capim.
A mulher, incomodada, puxa a coberta de retalhos e vira-se pro outro lado. Ele se levanta, aproxima-se da cabeceira da cama e com o tato procura o fósforo e acende o candeeiro. Esfrega os olhos, estica-se e pega a calça remendada pendurada num torno. Em seguida a veste por cima de um calção de malha azul juntamente com a camisa listrada “cor de bunina”.
- Mazé!
- Hum?
- Eu vou ver uma carrada d’água na fonte pros bichos e mais com pouco você vá pra cacimba arrumar pra beber. Viu?
- Hunrum!
Com o candeeiro vai até o quarto dos meninos.
- Ciço! Oh Ciço! Ciço!
- Senhor!
- Levante, meu filho, pra nós ir ver uma carrada d’água enquanto é cedo.
Meio enfadado o moleque ergue-se apertando os olhos enquanto o pai “encanga” os bois. 
- Ciço! Oh Ciço! Ciço!
- Senhor!
- Bora, meu filho, pra não chegar aqui meio dia!
O moleque pula da rede, puxa a porta, escora-a com um pano de prato sexta-feira encardido e sobe no carro de bois.
- Se Deus quiser umas nove horas nós estamos em casa, né?
- Hunrum!

A UNIDADE DOS TEMPOS*


Valci Melo
valcimelo@hotmail.com
facebook.com.br/valcimelo.al

Há pessoas que só vivem lembrando o passado.
Há pessoas que só pensam no presente.
Há pessoas que só vivem imaginado o futuro.

Há pessoas que esquecem o passado
E, assim, não entendem o presente.
Sofrerão as consequências no futuro.

Há pessoas que refletem o passado,
Compreendem o que vivem no presente.
Essas, sim, serão felizes no futuro!

O passado é alicerce que sustenta
O presente: construção em andamento.
O futuro só se realizará,
Dependendo do passado e do presente.

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* MELO, Valci. A unidade dos tempos. In. INQUIETAÇÕES: uma reflexão poética da vida humana. Curitiba: Protexto, 2012.

VIDA ALHEIA



Valci Melo
valcimelo@hotmail.com
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            Encontravam-se com frequência para conversar. E o assunto predileto, como sempre: a vida alheia. 
            Neste dia, contudo, melhor seria se não tivessem se encontrado:
- O que foi? 
- Nada! Ia passando e deu vontade de vir aqui, não posso?  
- Claro que pode! Você é sempre bem vinda aqui, querida! Diga as novidades...
- Não tenho nenhuma. E você?
- Ah! Tenho um babado forte, menina! Sabe o que eu descobri?
            - Não!
            - Mas irá saber agora!
            - Então diga logo, mulher!
            - A empregada de fulano está grávida de quatro meses...
            - Fulaninha?! Êta desgraça! Buchuda?
            - Pois é minha filha... Fiquei besta quando soube!
       - Eu também. Mas não vamos ocupar nosso tempo dando conta da vida alheia, né! No dia seguinte, passeando pela rua do pequeno povoado, cabisbaixa, a dita cuja encontra outra amiga.
            - O que tens que andas assim com ares de doido?
            - Nada!
         - Eu te conheço fulana! Tu que só anda com os dentes na rua, tá assim que nem Mané perdeu o trem e dizer que não é nada...
            - É por causa duns babados ai mulher...
            - Que babados? Desembuche logo!
            - Sabe o que é?
            - Claro que não!
            - Tô pensando aqui, sabe?
            - Sim...
           - Fulana me disse que fulaninha está grávida de quatro meses. E agora é que estou pensando: como é que aquela coitada vai se virar, tão novinha, sendo mãe?
            - Pois é!
            - Então você já sabia, né?
            - Quem ainda não sabe? A rua tá cheia, minha filha!
      - Mas eu soube ontem!- É sempre assim: os prejudicados são os últimos a tomarem conhecimento! Mas, e aí, como você e fulano ficaram depois disso?
            - Como assim? Por que isso nos afetaria se quem está grávida é a empregada da casa dos pais dele?
            - Então não lhe contaram ainda que o pai da criança é o seu namorado?
            - Hummmm?!
            A moça só se recuperou do desmaio alguns minutos depois...

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Capa da obra recém-publicada pela Editora Protexto
LEIA TAMBÉM: Inquietações: uma reflexão poética da vida humana, livro de Valci Melo publicado recentemente pela Editora Protexto. Quem quiser saber mais sobre a obra acesse: http://valcimelo.blogspot.com.br/2012/10/inquietacoes-uma-reflexao-poetica-da.html. Para aqueles/as que desejarem adquirir o livro podem fazê-lo através do site da editora: http://www.protexto.com.br/livro.php?livro=476 e/ou entrando em contato com o autor (valcimelo@hotmail.com / (82) 8128 9457).