SAUDAÇÃO INCOMUM


Paz e bem!

Mais um ano chega ao fim e muitas são as manifestações de bons desejos. Talvez em nenhuma outra época do ano sejam-nos direcionados tantos anseios de coisas boas quanto no Natal e no Final de Ano - inclusive por pessoas que nem as conhecemos.

Tento me convencer, embora não seja fácil, de que tal prática não é apenas a expressão automática de velhos costumes, na maioria das vezes, desprovida do real interesse no bem estar do outro. Chego a pensar assim pelo fato de que nem sempre consigo - e penso que não seja o único - visualizar muita coerência entre o bem desejado neste período e as ações praticadas pelas mesmas pessoas durante o ano que passou e o novo que se inicia. É como se nossos desejos fossem entidades com vida própria e portadores da mágica capacidade de tornarem-se concretos sem e até contra nós.

No entanto, como não é assim que a vida se desenvolve e a História é construída; como acredito que nossas ações (e omissões) têm implicações positivas e/ou negativas (direta ou indiretamente) não apenas nas nossas próprias vidas, mas também, nas vidas de pessoas que muitas vezes nem conhecemos, limito-me a desejar a você que agora lê este escrito apenas aquilo que sinceramente espero de 2014 para tod@s indistintamente: que ele seja capaz de nos ajudar a enfrentar todo e qualquer tipo de alienação e nos fortaleça na luta e na construção cotidiana de uma sociedade efetivamente humana.

Que assim seja!

MARIA, DONA. DONA MARIA.


Valci Melo




Maria que eras Dona
- e às vezes, dona Maria –,

Tua falta não me abandona
Nem de noite nem de dia.

Teu jeito próprio de ser,
Teu estilo singular,
Permanece em meu viver
E deve continuar.

Fisicamente partiste,
Mas continuas com a gente.
E quando me sinto triste:
Maria, Dona presente!

ESTAÇÃO SAUDADE*



Valci Melo
valcimelo@hotmail.com

Os dias passam e continuo a te esperar.
Sinto tua falta toda vez que em ti penso.
Mesmo sabendo que não irás mais voltar...
Constato os fatos, mas, enfim, não me convenço.

A ficha cai e às vezes torna a levantar.
Chacoalho o rosto inquieto e bem ligeiro.
Então percebo que não dá para acordar
Porque no fundo foi real; foi verdadeiro.

Te espero imenso. Te relembro simplesmente.
E até entendo que “seguistes” o caminho,
Pois a vida sempre tem esta atração.

Noutros momentos sinto forte só a mente.
O peito aperta e se mostra frágil e sozinho.
Somente o tempo pra lidar com o coração.

_____________
* Poema do livro em construção Poesia militante: registros do cotidiano. 

VIDA ETERNA OU O JEITINHO PARA A MORTE?



Valci Melo
13 e 16 nov. 2013

Dos mistérios que envolvem a existência
Há um deles que ganha resplendor,
Que angustia, conforta ou causa dor,
Dependendo da nossa consciência.

Há um ditado de ordem popular
Que defende pra tudo haver um jeito,
Sendo a morte o único defeito
Impossível de se remediar.

Mas na arte de um jeitinho dar
Os humanos cresceram por demais.
E a morte pra muitos não é mais
Companheira do verbo acabar.

A matéria tende a se desgastar
E um dia qualquer, sim, terá fim.
Mas a alma buscará seu jardim,
Seu castigo, descanso ou seu penar.

E é assim que “buscamos” enfrentar
A ideia de um “fim”; de um “nunca mais”.
Mas é a mente que nega um “jamais”
Ou a vida se dando a revelar?

O que é não consigo explicar.
Pode ser invenção, descobrimento...
O que sei é que a dor e o sofrimento
Buscam forma de se atenuar.

Também sei que a morte desse jeito
É uma ponte que faz a condução,
Competindo a ela a transição
Entre o mundo real e o perfeito.

O MUNDO É (?) DOS MAIS ESPERTOS


Valci Melo 


            Onze horas, cinquenta e nove minutos e dezenove segundos. Desde muito cedo estava ali. “É para quem chegar primeiro” - dizia o sistema. Há horas que se divertia naquela maldita fila trocando a escora de uma perna pela outra. Mas faltava pouco: “mais longe já esteve” - pensava.

            Chegou primeiro. Cumpriu a regra. Mas desde quando chegou até o momento não parava de chegar gente. “Mas cheguei primeiro, ora... Serei atendida primeiro” - pensava consigo mesma. “Tomara ver[1] alguém passar na minha frente” - assegurava. “Mas é bonito mesmo! Depois daqueles cinco ali serei eu”.

            “Pensa que não”, uma mulherzinha magra, saia jeans azulada e blusa meia manga cor de rosa começa a prosear com a segunda pessoa à sua frente. 

            - Hei moça! Começa aqui... - informa o nonagésimo novo da fila. 

            A moça finge que não escuta e continua a bater papo com a colega que cochichando a incentiva:

            - Fique ai mesmo. Ah! Quem estiver parido[2] que se dane! Aquele sujeito não manda em nada aqui!...

            - Tá! E eu vou ficar é aqui mesmo. Quem quiser “pocar[3]” que “poque”!

            Os vizinhos se entreolhavam, torciam a boca, balançavam a cabeça em sinal de desaprovação, mas para não arrumarem confusão, não diziam nada.

            - É apenas mais uma pessoa. Deixe essa “peste” para lá - cochichava a décima quinta da fila.

            - Essa vai passar, mas se outra pessoa se atrever... Hum! Aí não vai prestar não! – murmuravam alguns.

            Passou mais uma pessoa, outra, outra e outras. Todos ficavam bravos, reclamavam para o vizinho detrás, mas deixavam surgir a próxima oportunidade. E quando esta se fazia presente, esperavam acontecer mais uma vez. 

            - Graças a Deus que já é a minha vez! Nossa Senhora me defenda deste inferno! Coisa mais mal organizada! - reclamava em silêncio. 

            - Pode vir senhora - ordenou a atendente.

            Ela marchou rapidamente na direção do posto de atendimento, mas logo foi educadamente interrompida:

            - Só um minutinho, dona. Deixe-me atender logo está senhorita que ela tem pressa. Pode ser?

            Deu um meio sorriso. Balançou levemente a cabeça em sinal de aprovação forçada. Recuou. Respirou profundamente. “Bem que poderia dizer umas poucas e boas” - pensou. “Desgraça mesmo!” - continuou – “Desde às cinco horas que enfrento a fila e na minha vez Sá fulana que chegou agora ser atendida primeiro... Deve ser gentona[4], olha o jeito da bicha! Mas deixa pra lá. Deus tome de conta!”


[1] Desafio (Quero ver!)
[2] Incomodado.
[3] Estourar.
[4] Pessoa de posses.