TRADIÇÃO


Valci Melo
valcimelo@hotmail.com
 

O dizer do santo nordestino parecia tornar-se real. Eram 17h13min e a temperatura obrigava-nos, mesmo encasacados, a encolher-nos. Na frente da casa nem branca, nem preta, nem colorida, estava o tronco do ex-umbuzeiro, que desta vez sozinho dava uma boa fogueira.

- Bem na frente da porta - recomendava o papai! 
- Por quê? - perguntei.
- Pra encher a casa de fumaça - ironizou a mamãe!
- É não, meu filho, é porque senão faz mal... - filosofou o papai.

Eu, por sua vez, confuso entre a filosofia do papai e a ironia da mamãe limitei-me a cumprir mais uma intocável tradição e aquecer o terrível frio do mês de Junho.

O GRITO DAS RUAS: “NOVO” MECANISMO DE EXERCÍCIO DA SOBERANIA POPULAR?



 Valci Melo 

valcimelo@hotmail.com





O gritos das ruas está ecoando nos mais diversos setores e recantos da sociedade brasileira. Depois da revogação do aumento das tarifas do transporte público, entre as variadas bandeiras que continuam a ser defendidas nas manifestações, destacam-se aquelas que exigem a qualificação dos serviços públicos de saúde e educação e o combate à corrupção dos representantes políticos.



O momento se constitui numa das maiores oportunidades recentes que o Brasil já teve para fazer mudanças profundas, as quais, como sabemos, demandam mais que "boa vontade" política de alguns governantes.



Vivemos numa sociedade de classes e os interesses destas são não apenas diferentes, como também – e principalmente -, antagônicos. Neste contexto, o Estado assume as demandas daqueles que exercem maior pressão sobre ele - no caso brasileiro até então, os grandes empresários, banqueiros, latifundiários, etc.



É, pois, chegada a hora de inverter este cenário. Para tal, penso que o grito das ruas deve se constituir não apenas num movimento "espontaneísta", mas sim, num mecanismo contínuo, organizado e consciente de exercício direto do poder e de gestão coletiva da sociedade brasileira. E acredito que um passo importante para isso seja pautar a reforma política do Estado brasileiro e exigir que a mesma não se dê nos moldes do Congresso atual, e sim, que seja discutida e aprovada por uma Assembleia Nacional Constituinte especificamente convocada para tal, como sabiamente propõe o senador Cristovam Buarque.



Quanto à saúde e a educação, para começar, penso que o grito das ruas pode ser mais específico e apoiar questões já em discussão como o Projeto de Lei de Iniciativa Popular Saúde+10, que propõe a destinação de 10% da receita bruta da União para a saúde pública, bem como, a aprovação imediata do novo Plano Nacional de Educação (PNE 2011-2020) que prevê a aplicação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação.



Por fim, mas não encerrando a discussão, penso que duas outras questões também merecem destaque: 1) a heterogeneidade– e até, em alguns casos, oposição - das bandeiras erguidas; 2) a suposta rejeição ao envolvimento dos partidos políticos nas manifestações. No primeiro caso, apesar dos “riscos” que isto envolve, tendo em vista que não se trata de um movimento maduro, mas de algo em florescimento, vejo que serve, em alguns casos, tanto para pensarmos questões como a tão defendida liberdade de pensamento e expressão, como também, para testarmos a força e a amplitude de cada um destes anseios. Já no que tange ao segundo ponto, defendo que também cabem – e devem participar deste processo – não apenas os partidos, mas também, os movimentos e as organizações que lutam constantemente pelos interesses e ao lado da classe trabalhadora. Quer sejam neste momento, ao menos parcialmente, ainda indefinido para todos nós chamados de oportunistas ou de colaboradores, não importa. As ruas estão se constituindo num mecanismo de exercício direto da soberania popular e tais organismos não podem ficar de fora deste novo palco no qual se constrói a história brasileira atual.

O BATISMO DO SÃO JOÃO



Valci Melo
valcimelo@hotmail.com
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Minha gente preste atenção

Que agora vamos falar

Sobre a festa de São João;

Um evento popular

Que deixou de ser pagão

Quando a Igreja de então

O resolveu batizar.



Na parte Norte da Terra,

Inclusive em Portugal,

Anunciava o Verão

De forma especial.

Competia com o sermão,

Mas a Igreja pôs a mão

E mudou o ritual.



Daí nasceu o enredo;

A festa em tom cristão.

No fim deixaram São Pedro.

No comando São João.

Santo Antônio, sem segredo,

É o mais tímido no folguedo,

Mas do amor é o chefão.



E a gente do Brasil

Como entrou nessa História?

Não moramos na Europa...

Nosso Verão não é agora...

Como o povo descobriu

Esse ritual sutil

Pra celebrar desde outrora?



Foi com a colonização,

Com a invasão portuguesa,

Que aqui chegou o São João,

Como se diz com franqueza.

E com a contribuição

Que recebeu do povão

Tornou-se essa beleza.



Seus símbolos, como sabemos,

Não são usados em vão,

Valem além do vemos,

Pois fazem encenação.

Deles também falaremos

E até explicaremos

A sua definição.


A quadrilha era dançada

Por duas duplas na França,

Por isso era assim chamada.

E eram os ricos na dança...

Aqui ela foi mudada,

Ganhou passos e moçada

E festeja a esperança.



O casamento caipira

Torna o real engraçado:

O noivo bêbado não gira.

A noiva grávida é pecado.

O pai bravo só delira,

O delegado é uma mentira.

E o padre é um depravado.



Já a fogueira sagrada

Relembra um caso fiel:

Dizem que marca a chegada

Do filho de Isabel,

Prima da Abençoada,

A qual ficou informada

Pela fumaça no céu.



As simpatias dão sorte,

Sobretudo, no amor.

As crenças relevam o norte.

As comidas dão sabor

E deixam o povo mais forte.

Já os balões causam morte,

Incêndio e muita dor.



Os fogos dizem que acordam

O dorminhoco João.

Dizem também que eles rogam

Em busca de proteção.

Só sei que eles me incomodam

E que meus gritos não vogam

Diante da tradição.



É este, pois, o São João:

O carnaval do Nordeste!

A festa que o povão

Comemora no agreste,

No litoral, no sertão...

Se foi do Norte, hoje, então,

Pertence ao “cabra da peste”.