DOIS MUNDOS*



Valci Melo


            Num dia desses qualquer, os dois anjinhos resolveram passar o final de semana com a titia. A distância que separava a casa das duas meninas da residência da nobre parente materna era de apenas dois quilômetros.

Ao chegarem, acompanhadas da filha mais velha da casa, a tia perguntou para uma das meninas de apenas três anos de idade:

            - Viestes andando?
            - Não.
            - Viestes como?
            - De caminhada.
            - O caminho todo?
            - Não.
            - Até onde?
            - Até aqui.
            - De lá para cá de pé?
            - É. Vim na cacunda...

            Mais tarde, sentada à mesa com os demais, a tia tornou a puxar conversa de adulto com as sobrinhas. Dessa vez perguntou para a sobrinha mais velha, de apenas sete anos de idade, se o porco abatido uma semana antes na casa dela tinha sido vendido por arrobas:

            - Foi arrobado?
            - Ah?
            - Sua mãe arrobou o porco?
            - Não, era dela mesmo...

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* Crônica do livro Pedaços de nós: memórias de um passado presente. 

TEOLOGIA DA CONFORMAÇÃO*


Valci Melo


- Curucucu! Curucucu!
- Hummmmm! Vou logo senão quando chegar lá não tem mais nada...
- Vai pra d’onde menino, uma hora dessas?
- Catar umbu, mamãe.
- Mas ainda é madrugada, meu filho.
- É sim senhora. Mas se eu não for agora quando chegar lá os meninos dos vizinhos têm catado os melhores...
E lá vai o moleque apanhar umbu às quatro horas da manhã. Quase não dorme, ou melhor, como ele mesmo diz: “dorme com um olho no peixe e outro no gato”.
Mais tarde, o irmão pega o milho que sua adorável mãe colocou de molho na tarde anterior e se põe a moer.
A sofrida senhora, então, de posse da massa, prepara aquele delicioso cuscuz que será devorado com o sumo dos fartos e ambicionados umbus.
- Nossa Senhora! Comi “que nem” rico! – diz o catador de umbu.
- Que “nem” rico mesmo, pois eles não dão valor a toda “merda” não, meu irmão – responde inconformado o outro.
- Deixa de ser mal agradecido, menino. Faz mal... A gente tem que dar graças a Deus pelo que tem! Tanta gente gostaria de comer pelo menos isso...
- Mas porque é besta e fica conformada com o jeito que vive. Por isso que não tem nada. Quero ver o “saco do rico” encher! – revidou o “mal agradecido”.
- Mas tu não tem jeito mesmo, né Manoel? “Quem trabalha Deus ajuda”, meu filho! “O pouco com Deus é muito e o muito sem Deus não é nada!” – argumenta a mãe.
- A meu ver, Deus está presente onde se faz o bem, não importa a quantidade! – rebateu o inconformado.
- Vamos parando de vez com essa heresia! Onde já se viu?! Agora... Estou bem criando comunista dentro de casa!
Cabisbaixo e pensativo sai o subversivo para o oitão[1]. O catador de umbu vai balear[2] e a angustiada mãe, resmungando, recolhe a mesa:
- Diabo mesmo, homem! Onde já se viu isso?! Menino mal criado, rapaz! Tomara ver isso se repetir!


* Crônica do livro Pedaços de nós: memórias de um passado presente.
[1] Parte lateral da casa.
[2] Caçar pássaros.

INVER$ÃO DE VALORE$



Valci Melo
valcimelo@hotmail.com

Vivemo$ numa $ociedade que perdeu a noção do ridículo...

Uma $ociedade que $ilencia quando precisa falar, mas que grita quando deve ouvir.

Uma $ociedade que aceita o que deve recusar, mas que rejeita o que a pode servir.

Uma $ociedade que condena quem deve aclamar, mas que aplaude quem $abe infringir.

Uma $ociedade na qual as pe$$oas de ben$ andam livre$ e a gente de bem encontra-se ameaçada, intimidada, desnorteada.

Uma $ociedade na qual ser honesto é sinônimo de ser besta, anacrônico, amostrado.

Uma $ociedade na qual tudo é relativizado, a mudança é coisa do passado e a igualdade um princípio abandonado.

A $ociedade do indecente e do inconsequente que às vezes até parece consciente.

A $ociedade do faz de contas e da inversão que transforma tudo em encenação.

A $ociedade da possível revolução que transformará a raiz da alienação que é a opressão?

Pensando bem... Por que não?