O SONHO DA CONVERSÃO (Parte 7 - final)*



O acerto de contas

“Viver é isso: ficar se equilibrando o tempo todo, entre escolhas e consequências.
Jean-Paul Sartre

Recuperado, Jó retornou a sua casa, mas nada era mais como antes. Sua esposa, seus filhos, seus compadres, enfim, quem não o acusava seguramente como assassino, alimentava sérias dúvidas acerca do seu envolvimento com Angélica e com a morte dos irmãos Ferreira.
Jó não sabia distinguir o que era pior: se a acusação daqueles que descaradamente o evitava ou a frieza dos que não conseguiam acreditar na sua total inocência. Diferentemente de antes, conseguia se colocar no lugar das pessoas e imaginar o quanto era difícil para elas acreditarem nele. Às vezes, até ele mesmo duvidava se realmente não tinha alguma responsabilidade no assassinato dos irmãos Ferreira: “Será que aquela discussão no bar do Zé da Pinga não teria exposto demais os rapazes? Tinha muita gente observando e quem garante que os bandidos não ouviram nossa briga e colocaram uma tocaia?”
Mas também não descartava outras hipóteses: “Angélica estava muito angustiada com a possibilidade de Manoel espalhar o rumor de que traia o marido... Será que ela teve coragem de mandar matá-los para se proteger? Não! Aquela dali era anjo em pessoa: seria incapaz de fazer uma coisa dessas! Deve ter sido o Severino mesmo, com raiva pelo prejuízo que levou... Ou foi seu Raimundo? Quem sabe pode ter sido até alguém que ninguém imagina...”
Vez ou outra, Jó se punha a pensar no que viu e ouviu no sonho e o quanto aquilo conseguiu mexeu com a sua vida. Já não tinha certeza se deveria ou não batizar o Moisés, se existia céu ou inferno fora da Terra, se haveria vida após a morte... Mas de uma coisa tinha convicção: não queria que a sua vida acabasse com a morte. Por isso, precisava conduzi-la de modo diferente do que fizera até então. Não sabia muito bem por onde começar, mas tinha consciência de que a partir dali deveria regrar-se pelo amor ao próximo como a si mesmo.
Na dúvida acerca da real existência da vida após a morte, resolveu arriscar: a partir de então seria um novo homem. Se existir a eternidade, iria para o céu. Caso contrário, ao menos, daria sua contribuição para fazer desta vida um paraíso e deixaria boas recordações para os que ficassem e/ou viessem depois.
Disposto a mudar de vida, resolveu começar pela correção da injustiça que cometeu com seus sogros. “Vou pedir perdão pelo que fiz com eles, convencê-los de que não sou assassino, elucidar o que realmente existiu entre mim e a Angélica e convidá-los para serem os padrinhos do Moisés. Depois, darei um grande banquete para toda a população, ocasião em que tornarei público o conteúdo do meu sonho e esclarecerei esses boatos a meu respeito. Mesmo que ninguém acredite em mim, ficarei ao menos com a consciência tranquila por ter deixado tudo às claras”.
Numa manhã nublada de sábado, o sétimo dia da semana, Jó resolveu dar o primeiro passo: ir à casa dos sogros. Laura queria ir junto, mas ele recusou a companhia: queria ter uma conversa a sós com os pais dela.
Montou em seu cavalo e saiu anunciado a quem encontrava pelo caminho que em breve estaria dando um banquete e fazia muito gosto em ter todos por lá.
Ao vê-lo se aproximar, seu Joaquim e dona Leonarda não acreditavam que aquilo estava ocorrendo.
- É muito desaforo! – esbravejava a mãe de Laura. – Depois de tudo o que aconteceu esse bandido ainda tem a coragem de colocar os pés no que é nosso! Aí já é demais!...
- Aqui ele não entra! – garantia seu Joaquim. – E se insistir não respondo por mim...
- Oh de casa! Oh de casa!
- Aqui você não é bem vindo, assassino! - gritou dona Leonarda antes mesmo que ele desmontasse.
- Fora daqui, cabra! Não ouse cruzar o nosso batente se quiser sair andando com suas próprias pernas! – ameaçou seu Joaquim.
- Pelo amor de Deus! - solicitou Jó. - Só quero conversar com você...
- Não temos nada para conversar com você! – respondeu dona Leonarda. – Pra gente chega! Você já nos fez sofrer demais!
- Eu errei muito com vocês, é verdade, mas não matei os meninos nem trai o João Pedro. Por favor, eu imploro; deixe-me explicar tudo o que estão comentando...
 - Não confiamos numa só palavra que venha de você, Jó. Não perca seu tempo! – esclareceu seu Joaquim. - Você pode enganar qualquer pessoa, menos a gente. Agora desapareça da minha porta senão vou ser obrigado a descarregar isso aqui no seu lombo! – concluiu seu Joaquim apontando a espingarda já engatilhada para Jó.
- Sei que não é fácil para vocês acreditarem em mim nem esquecer o mal que fiz durante esses anos todos. Mas deixem-me ao menos falar. Sou uma nova pessoa, por isso, imploro que ao menos ouçam o que tenho a dizer.
- Eu não queria me desgraçar com você, bandido, mas vou ser obrigado... – exclamou seu Joaquim acertando Jó nas costas com um tiro de espingarda enquanto ele descia do cavalo.
Em seguida, o velho abriu a porta e saiu para conferir se o infeliz estava realmente morto.
- Só peço que me perdoem! – sussurrou Jó agonizando.
Seu Joaquim torceu o rosto e saiu à procura de um portador para avisar a família que viesse recolher o corpo.

A vida “eterna”...

“De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida.”
Bertolt Brecht

            Depois que morreu, Jó continuo a viver. E talvez continue por muitos e muitos anos. Pois, se para alguns, ficou apenas a imagem arrepiante de um bandido, de um mau caráter, e para outros, somente a dúvida se tudo não tinha realmente passado de um sonho, de um infeliz pesadelo, para a maioria das pessoas ele foi elevado à condição de mártir e idealizado como herói. Para estas, a última impressão prevaleceu e se foi responsável pela morte dos irmãos Ferreira ou não, isso já não importava tanto. Bastava saber que, quando morreu, estava verdadeiramente disposto a ser uma nova pessoa... E arriscavam até um ousado palpite: “Quem sabe se estivesse vivo não estaria, de fato, contribuindo para a construção de um mundo melhor...”

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*  Capítulos 23 a 24 do romance O SONHO DA CONVERSÃO cuja publicação se deu aqui e no Portal http://www.escritoresalagoanos.com.br/texto/6141.

O SONHO DA CONVERSÃO (Parte 6)*

A dúvida

"A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original."
Albert Einstein

Jó acordou muito assustado e não parava de pensar um segundo sequer no que viu e ouviu no sonho. Quanto mais tentava se esquecer do infeliz pesadelo, mais vivo ele ficava em sua memória. “Foi apenas um sonho.” – falava para si mesmo na tentativa de se autoconvencer. Mas não adiantava: não conseguia parar de pensar no comportamento das pessoas em seu suposto velório, na conversa que teve com os falecidos, na inexistência do céu e do inferno, na forma como até então tinha conduzido a própria vida. “E se não foi apenas um sonho?” – pensava. “Isso pode ser um sinal... Será mesmo que existe outra vida ou inventamos isso por ser muito doloroso aceitarmos que a morte é realmente o fim? Será que ao morrermos não teremos o mesmo destino que o dos animais e das plantas? Mas eles têm espírito? Devem ter porque assim como a gente, nascem e morrem... Mas se têm o que os diferenciam de nós? Será que têm consciência do que fazem? E caso não tenham consciência de seus atos, seus espíritos vão para o céu ou para o inferno? Mas se não existe vida após a morte, o mesmo que ocorre com eles deve acontecer também com a gente...”
Os dias iam se passando e aquele homem prepotente e orgulhoso dava lugar a um ser inseguro e deprimido. Jó vivia pensativo, mas não comentava com ninguém sobre o sonho. Sua esposa estava bastante apreensiva com o que conseguiu ouvir antes de acordá-lo: “Eu não matei ninguém. Posso até ter alguns defeitos, mas assassino ou ladrão nunca fui. Isso não! Deus me livre! O Manoel interpretou tudo errado Joãozinho... Eu não estava tendo um caso com a sua mulher... Isso foi antes de vocês casarem. Eu nem sabia que a sua mulher era a Angélica com quem fui noivo. Ele entendeu tudo errado... Tudo errado!”
Sentindo-se insegura para tocar no assunto devido ao estado no qual já se encontrava o marido, Laura dava asas à imaginação: “Será que Jó tem a ver com a morte de meus irmãos? Jó e Angélica tiveram um caso e ele nunca me disse nada!... Meu Deus! Foram eles; foram eles que tramaram a morte dos meninos... Manoel deve ter descoberto e ‘dado com a língua nos dentes’ e eles mandaram matar os dois antes que o caso se tornasse um escândalo. Ave Maria! Só pode ter sido isso!”
Os dias foram se passando e o percurso mais longo que Jó se arriscava a fazer era do quarto até a cozinha ou, no máximo, até o alpendre: lá ficava tentando decifrar o conteúdo do sonho.
Certo dia, ele começou e ter alucinações e receber a visita dos irmãos Ferreira. E não adiantava se esconder: onde entrasse eles iam junto.
- Deixem-me em paz! – gritava apavorado. - Não matei vocês. Não trai você, João Pedro! Não trai! É tudo invenção do Manoel. É invenção dele... Invenção!
A partir de então, ele parou de se comunicar com as pessoas, de andar e de comer. A vida já não tinha sentido, pois sua bússola não mais indicava o caminho a seguir.
A notícia acerca do seu estado de saúde se espalhou e ele começou a receber muitas visitas. Vez ou outra tinha as alucinações e conversava com os falecidos diante de todo mundo, tentando explicar para eles que não era responsável pelo crime.
O boato de que Jó estava recebendo os espíritos dos irmãos Ferreira e que estes revelaram ter sido ele e a viúva de João Pedro os responsáveis pelo crime começou a circular. “Veja como são as coisas: Jó mandou matar os cunhados porque estava tendo um caso com a mulher de um deles e o outro descobriu”. – comentava-se na região.
A notícia chegou aos ouvidos de seu Joaquim e dona Leonarda. Indignados, pressionaram Angélica, viúva de João Pedro, para ouvir a versão dela, mas antes que isso acontecesse, a mesma se suicidou dentro de um açude.
O sonho de Jó e o suicídio de Angélica tornaram-se os assuntos mais comentados da região durante muito tempo. Para alguns, não restavam dúvidas: o assassinato dos irmãos Ferreira agora estava mais do que esclarecido. O estado de saúde de Jó e o suicídio de Angélica eram a manifestação da justiça divina, visto que tinham cometido um crime bárbaro e isso não poderia ficar impune. “Quem deve teme!” – comentavam na redondeza. – “Ela viu que ia ser desmascarada e se matou. Já ele, olhe: a consciência pesou tanto que acabou confessando o crime e ficando ‘ruim da bola’...”
Para outros, a dúvida falava mais forte: “Pobrezinha! Talvez se matou porque era inocente e não aguentaria passar por tamanha humilhação. Quem já viu: além de perder o marido tão nova, coitada, agora ser responsabilizada pelo crime!...”


A escolha

 “Que seja doce a dúvida a quem a verdade pode fazer mal.”
Michelangelo Buonarroti

Após o acontecido, seu Joaquim e dona Leonarda mandaram chamar Laura em casa e obrigaram-na a deixar o marido:
- Não é possível que depois de tudo o que esse homem fez à nossa família você ainda tenha coragem de viver ao lado dele! – reclamou dona Leonarda.
- Esse homem é meu marido, mamãe. – rebateu Laura. – Tenho consciência que ele tem muitos defeitos, mas não consigo me convencer de que tudo não passe de um sonho.
- Um sonho, minha filha! – contestou seu Joaquim. – O sonho foi a única forma que Nosso Senhor encontrou para soltar a língua daquele miserável, isso sim!
- Papai! – interpelou Laura. – Entendo perfeitamente a posição de vocês. Mas preciso que tentem se colocar no meu lugar...
- Não, minha filha! – retorquiu dona Leonarda. – Escolher ficar ao lado desse homem depois de tudo é incompreensível. Por favor, não nos peça para fazer isso!
- E se ele for inocente? – questionou Laura. – Se tudo não passar de um pesadelo, de alucinações?
- Se fosse, minha filha! Se fosse!... – retrucou seu Joaquim. - Mas o caso é que não é nem aqui nem no “quinto dos infernos”. Depois do que ele foi capaz de fazer com a gente esses anos todos não restam dúvidas: ele acabou com a vida dos seus irmãos e com a nossa também. Só não vê quem for cego!...
- Você escolhe, minha filha: – ordenou dona Leonarda. – ou abandona aquele bandido ou não nos considere mais como seus pais.
- Mas mamãe!
- Mas nada! É isso mesmo que você ouviu e pronto! Mas nada! – respondeu dona Leonarda com o consentimento de seu Joaquim que balançava a cabeça.


O sofrimento

"O caráter pode se manifestar nos grandes momentos, mas ele é formado nos pequenos."
Phillips Brooks

Apesar de muito confusa, Laura preferiu cuidar do marido que estava a cada dia de mal a pior. Seu estado era tão grave que já não havia muita esperança de que viesse a ficar recuperado. No entanto, para não deixá-lo “morrer à míngua”, a família resolveu levá-lo à capital para receber os cuidados médicos.
No hospital, Jó até estava respondendo bem ao tratamento quando Laura resolveu “tirar a limpo” o conteúdo do sonho:
- Preciso que me conte a verdade, Jó. Vivo com você há vinte anos e tenho o direito de saber o que realmente aconteceu entre você e a finada Angélica.
- Finada Angélica? – questionou Jó, assustado.
- Sim, finada.
- Não! Não! Finada não! Foram eles... A culpa é deles... Eles mataram a Angélica...
- Ninguém matou a Angélica, Jó. Foi ela que se suicidou.
- Não! Angélica não! Morta não! Não!
Até então ele não sabia do falecimento de Angélica. A notícia de tal fato deixou-o ainda mais perturbado. Já sua reação contribuiu para que Laura ficasse ainda mais duvidosa acerca do seu envolvimento com a ex-cunhada e com o assassinato dos irmãos.
Jó enlouqueceu de vez. A partir de então foi transferido para um manicômio, onde permaneceu por quase dois anos.
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*  Capítulos 20 a 22 do romance O SONHO DA CONVERSÃO cuja publicação dar-se-á aqui e no Portal http://www.escritoresalagoanos.com.br/texto/6135 ao longo dos próximos dias.


O SONHO DA CONVERSÃO (Parte 5)*



O filho caçula

“Deus escreve certo por linhas tortas”
Ditado popular

Quando casaram-se, Jó tinha 25 anos e sua esposa Laura, apenas 17 anos. Aos 45 anos de idade, ele era pai de 06 meninas, 05 meninos e sua esposa estava grávida do décimo segundo filho.
A cada gravidez, Jó dizia que pararia por ali. Mas sempre que surgia uma nova amizade com alguém de posses, ele tratava logo de engravidar a esposa para arrumar mais um compadre rico.
E assim aconteceu com o Moisés, o décimo segundo filho. Cinco meses antes de sua concepção, ele conheceu o fazendeiro Toinho Araujo, com quem desenvolveu uma estreita relação.
Jó tinha o costume de batizar as crianças ainda no primeiro mês de vida, por isso, assim que elas nasciam, tratava logo de convidar os padrinhos e as madrinhas que já tinha em mente.
Com o Moisés não teria sido diferente se um mês antes do menino nascer ele não tivesse se desentendido violentamente com o futuro compadre. A briga se deu num dos currais de gado da região logo depois que Toinho Araujo tentou negociar com Jó uma dívida de gado, alegando prejuízo na revenda dos animais.
Com a amizade desfeita, Jó ficou sem futuros padrinhos para o filho que nasceria em breve. “Mas isso não é problema” – pensava ele. – “Logo conheço alguém que realmente mereça ser meu compadre”.
O Moisés nasceu e nada de Jó desenvolver uma nova relação com alguém que merecesse ser seu compadre. Certa noite sentou-se à cabeceira da cama e interrogou a mulher sobre quem convidar para serem padrinho e madrinha do menino.
- Já sei o que pensa sobre o assunto, mas como é o nosso caçula, ficaria muito satisfeita se pudéssemos convidar papai e mamãe para serem os padrinhos de vela do Moisés – propôs Laura.
- Ah, Laura! Lá vem você de novo com essa teimosia! Já que é o nosso caçula, aí mesmo é que não podemos dar a qualquer um para batizar.
- Mas Jó!...
- Mas nada! Mas nada! Pensei que pudesse contar com você para fazer a escolha, mas já vi que tenho que fazê-la sozinho mesmo.
- Jó!...
- Parou! Parou! Parou! Vamos dormir que é melhor. Depois penso nisso.
Passaram-se algumas semanas e ele não conseguia encontrar padrinhos para o menino. “Chamar quem já é compadre não tem sentido” – pensava. “Chamar os pais de Laura é perder a vergonha de vez: o que eles fizeram comigo...” “Ficar sem batizar não pode: não vou deixar o menino se criar pagão, como se fosse um animalzinho!...” “O que faço meu Deus?”
Certa manhã, durante o café, Laura resolveu tocar no assunto do batizado do Moisés:
- E o menino vai se criar pagão mesmo, é Jó? Você deveria deixar de orgulho besta e chamar logo papai e mamãe para serem padrinhos dele...
Jó ficou tão zangado que parecia estar possuído por um demônio:
- Era só o que me faltava: você de novo com esse assunto? Parece que vinte anos ainda não foram suficientes para você me conhecer, mulher! Quantas vezes vou ter que dizer que os seus pais para mim morreram? O que eles fizeram comigo foi imperdoável, Laura!
Cabisbaixa, Laura retirou-se e saiu para a cozinha. Ele “amarrou o bode” e, irritadíssimo, saiu de casa e só voltou ao meio dia. Almoçou e, como ainda estava com muita raiva da esposa, foi descansar no alpendre.


A procura

 “Quem procura acha”
Ditado popular

Na varanda, Jó sentou-se na cadeira de balanço e logo adormeceu. Não demorou muito novamente vem sua esposa e toca no assunto. Ele, que já estava irritado, ficou fora de si e desabafou:
- Já te falei mais de mil vezes que não gosto deste assunto! Sabe muito bem que se tivesse que escolher entre seus pais e o Satanás para padrinho do meu filho, escolheria este último!
Dizendo assim, foi até o umbuzeiro que ficava no final do terreiro, pegou o cavalo que já estava selado e saiu à procura de um compadre para o seu filho caçula: “Hoje só volto para casa com um padrinho para o Moisés!” – garantia para si mesmo. “E não é qualquer um, não! - como bem quer Laura...”
Tendo andado alguns quilômetros encontrou um agricultor, mas nem o cumprimentou. Mais adiante, encontrou outro pobre, mas também não deu importância. Mais à frente avistou um cavaleiro que despertou a sua atenção. Cada vez mais o moço estranho se aproximava e quando se encontraram o cavaleiro acenou com a mão direita, ordenando que parasse, e o cumprimentou.
- Muito boa tarde!
- Boa tarde! – respondeu Jó.
- O senhor, que deve conhecer bem esta região, poderia me informar se é por aqui que mora um fazendeiro chamado Jó?
Como era de costume na região não indicar a residência das pessoas nem dar informações pessoais para desconhecidos, Jó respondeu:
- Sei não senhor!
- Não é possível! – exclamou o moço – Me disseram que num raio de 70 quilômetros qualquer pessoa saberia dar informações sobre este homem e o senhor diz que não o conhece...
- Que mal lhe pergunte – interrompeu Jó - o senhor vem de muito longe é?
- Sim e não... – respondeu o cavaleiro engelhando a testa e girando a mão direita para um lado e para o outro.
- Hum! – murmurou Jó levando a mão direito até a boca. – Desculpe o intrometimento, mas era urgente e muito importante o que o senhor tinha para tratar com esse tal de Jó?
- Nada demais! – respondeu o sujeito – É que sou muito rico e gosto de sair pelo mundo à procura de pessoas que mereçam a minha companhia e amizade. E passando pela região, ouvi muitos comentários acerca desse Jó e fiquei bastante interessado em conhecê-lo pessoalmente. Quem sabe, poderíamos até tornar-nos grandes amigos... Mas já que o senhor não pode me ajudar, também não vou tomar mais o seu tempo...
- Olha moço – tentou justificar Jó – o senhor me desculpe, mas Jó sou eu. É que a gente...
- Ah! Não precisa se desculpar! – destacou o moço. – O importante é que finalmente encontrei quem tanto procurava...
Jó e o estranho conversaram durante muito tempo e quem passava por eles na estrada tinha a impressão de que já fossem velhos conhecidos.
Jó falou de sua família para o moço e, aproveitando a oportunidade convidou-o para ser padrinho de seu filho.
- Será um grande prazer tê-lo como compadre! Assim, terei mais herdeiros! – concluiu sorridente.
Tornaram a conversar e o moço falava muito em seu reino. Mas, em momento algum, Jó perguntou como se chamava.
Passadas algumas horas, o moço disse a Jó:
- Compadre, é bom marcarmos logo uma data para o batizado, não acha?
- Será quando quiser! – respondeu Jó entusiasmado – Podemos marcar até para domingo, caso o senhor queria!
- Claro! Claro! É uma ótima ideia!
- Quer dizer, – interrompeu Jó – domingo agora não. Está muito próximo para convidar meus outros compadres, tratar a missa...
- Quanto ao padre não precisa se preocupar. Tenho à minha inteira disposição todo tipo de profissional. Faço questão de trazer os que já estão lá comigo. E se você não se incomodar, trago pastores de outras denominações religiosas também...
- Não! Não! Sou católico praticante e fiel seguidor da minha igreja. Se não for incômodo demais, só precisa trazer o padre mesmo...
- Como quiser! – respondeu o sujeito – Então vamos fazer assim: já que precisa reunir seus outros compadres, vamos marcar o batizado para daqui a quinze dias?
- Combinado! – respondeu Jó. - Agora vamos lá pra casa; pernoita por lá e conhece a minha família!
- Seria uma honra, mas não vou poder! – exclamou o sujeito – Tenho um compromisso e já é chegada a hora.
Demonstrando estar com pressa, o moço foi embora e Jó voltou para casa feliz da vida. Até que enfim tinha conseguido mais um compadre rico: só precisou ter um pouquinho de paciência para encontrar alguém a sua altura...



O batizado

“A arrogância é o reino – sem a coroa.”
Provérbio Judaico

Durante as duas semanas que antecederam o batizado, Jó preparou-se para dar uma grande festa. Como sempre fazia, convidou todos os compadres ricos e, no dia do evento, colocou dois vigias na cancela da fazenda para não deixarem passar nenhum intruso. Assim estaria livre de passar vergonha...
Logo seus convidados chegaram e, ansiosos, esperavam o tal moço.
- Nossa! Que carrão é aquele? – perguntou um dos convidados.
- Só pode ser o tal moço! – responderam os demais.
Parou, então, o tal carro e dele desceram o moço, suas esposas, seus filhos, o padre e o motorista. Mas enquanto os convidados observavam estes, aproximavam-se dezenas de carros. Era toda a sua turma. E todos foram muito bem recebidos!
- Senhoras e senhores, desculpem o incômodo, mas é que me sentirei muito honrado se todos vocês aceitarem tomar assento à mesa comigo! – disse Jó.
- Se não for pedir muito compadre – interrompeu o sujeito – eu gostaria que fizéssemos logo o batizado!
E assim aconteceu: batizaram o menino, almoçaram e se divertiram a tarde inteira. Já ao pôr-do-sol, o moço mandou que todos ficassem ao seu redor e, depois de um extenso discurso, entregou a Jó um papel, dizendo-lhe:
- Preciso que assine este documento para que você e toda a sua família possam ser oficialmente meus herdeiros.
Jó fez tudo o que o moço pediu sem, nem ao menos, ler o que estava escrito no papel. Depois que já tinha assinado, ainda com o documento em mãos, teve a curiosidade de olhar o que estava escrito.
O silêncio, então, invadiu o ambiente e todos ficaram olhando, admirados, para Jó. Ele estava mudando de cor; pasmo frente ao tal papel.
No documento estava dizendo que aquele moço era Satanás e que seu reino era o inferno, no qual a herança de Jó já estava garantida. Ele pensou em rasgar o contrato, mas antes que o fizesse, o moço tomou-o bruscamente de suas mãos e junto com toda a sua comandita morriam de gargalhadas.
Sem ter mais o que fazer, Jó ficou apavorado e caiu morto.


 A descoberta

“Nem tudo que reluz é ouro”
Ditado popular

O espírito de Jó retirou-se de seu corpo pôs-se a observar o comportamento das pessoas diante do seu falecimento. Também conseguia entrar em contato com o que elas estavam pensando e sentindo a seu respeito: “Era meu compadre, mas...” “Morreu e não deixou de ser arrogante!” “Agora paga as maldades que praticou neste mundo!” “Quem procura acha...”
Ele ficou muito decepcionado ao ver que grande parte das pessoas que estavam ao seu redor não o suportava e apenas fingiam gostar da sua companhia ou amizade. Acocorou-se, colocou a cabeça entre as pernas, mas antes que gozasse do direito de lamentar-se com o que considerava falsidade de seus pares, lembrou que tinha morrido e que deveria procurar o paraíso: ao menos lá desfrutaria de algo verdadeiro.
Levantou-se e começou a andar. Mas tudo o que via era apenas a paisagem terrestre. Não conseguia encontrar o lugar que nasceu, cresceu e viveu ouvindo e imaginando descrições a respeito. “Aqui não é o céu!” – pensava consigo mesmo. “Não estou vendo anjos, as nuvens permanecem na parte de cima, a luz continua sendo a manifestação dos raios solares e tem até animais e plantas... Não! Não pode ser o paraíso, pois os animais quando morrem simplesmente se acabam...”
Jó fechava os olhos e chacoalhava a cabeça, mas de nada adiantava; continuava a ver apenas o que já estava acostumado: o horizonte terrestre. Continuou andando a procura do paraíso, mas não encontrava nada que correspondesse à imagem que tinha do céu, nem tampouco ao que imaginava ser o inferno. Algumas situações até continham elementos que poderiam existir no céu ou no inferno, mas não era possível que fosse apenas aquilo.
Enquanto procurava, Jó avistou alguém andando à sua frente. Adiantou os passos para acompanhar, mas quanto mais rápido andava em sua direção, mais distante ficava. Parou à margem do caminho, sentou-se numa ribanceira e começou a refletir sobre o que estava acontecendo. Enquanto pensava, avistou alguém de costas, na encruzilhada, com o pé direito escorado no repuxo. Aproximou-se e, ansioso para descobrir o grande mistério da vida, foi logo perguntando ao moço que se encontrava a sua frente:
- O senhor pode me informar onde fica o céu?
De costas, o moço sorriu meio que ironicamente e disse:
- Pode ser aqui.
Jó parou, franziu a testa, elevou a mão direita ao queixo e tornou a perguntar:
- Como aqui pode ser o céu se tem as mesmas coisas que lá na Terra?
- Não disse que era apenas o céu. – contrapôs o moço. – Disse que poderia ser o céu, assim como, também pode ser o inferno. Isso depende...
- Agora deu! – interrompeu Jó. – Pelo que estou vendo você está mais perdido do que eu...
- Engano seu! – rebateu o moço, virando-se para Jó.
- Manoel! – exclamou Jó, assustado. - Mas você está morto!...
- Você também! – respondeu o finado Manoel dando uma gargalhada.
Jó tentou voltar correndo, mas não adiantou: deu de frente com o finado João Pedro que vinha ao seu encontro.
- O que vocês querem comigo? – perguntou apavorado.
- Acertar as contas. – respondeu Manoel.
- Acertar as contas? Não! Seus pais já me pagaram tudo; não tenho mais nada para acertar com vocês.
- Não estamos falando do empréstimo, mas sim, do nosso assassinato. – explicou João Pedro.
- Assassinato? Mas eu não tenho nada a ver com isso!
- Não mesmo?... – questionou Manoel. – Se não fosse por sua causa a gente não teria se acabado tão jovem...
- Você destruiu a gente, Jó... – completou João Pedro.
- Mas eu não matei vocês! Eu juro que não tenho nada a ver com isso!
- Você é responsável pelo nosso fim, Jó! Responsável! Culpado pela nossa morte!
Jó ficou atordoado. Faltava-lhe o chão. Tentava correr, mas estava cercado. Aquelas acusações faziam eco em sua consciência:
- Eu não matei ninguém! – gritava apavorado. - Posso até ter alguns defeitos, mas assassino ou ladrão nunca fui. Isso não! Deus me livre! O Manoel interpretou tudo errado Joãozinho... Eu não estava tendo um caso com a sua mulher... Isso foi antes de vocês casarem. Eu nem sabia que a sua mulher era a Angélica com quem fui noivo. Ele entendeu tudo errado... Tudo errado!
Jó fechou os olhos, respirou fundo, estufou o peitoral, criou coragem e continuou:
- Querem saber de uma coisa: vocês devem ser manifestação do Encardido tentando me desviar do céu. Fiquem aí com as besteiras de vocês que vou continuar procurando o paraíso.
Os irmãos Ferreira se desmanchavam em gargalhadas enquanto Jó tentava livrar-se deles para procurar o céu.
- Não adianta Jó. – esclareceu Manoel. - Tanto o céu quanto o inferno ficam aqui na Terra e só existem para os vivos.
- Não! Vocês estão querendo me iludir, confundir a minha cabeça, testar a minha fé...
- Nada disso. Só estamos querendo que você perceba a verdade enquanto é tempo. – disse João Pedro.
Jó ficou muito confuso. Silenciou por um instante, ergueu a cabeça, olhou o firmamento e tornou a puxar conversa:
- O céu é céu... A Terra é Terra... Céu na Terra ou Terra no céu não pode...
- Não pode por quê? – questionou Manoel - A Terra é um planeta, um lugar, o céu e o inferno são situações, estados de espírito... Portanto, é você quem faz da Terra um paraíso ou um inferno. E você, meu caro, teve tanta oportunidade para fazer da Terra um paraíso e deixar um planeta melhor para seus descendentes... Mas, infelizmente – concluiu Manoel - sua herança foi o inferno.
Jó ficou muito revoltado. Não conseguia se conformar com aquilo. Não era possível que tivesse passado a vida inteira aguardando um futuro que não existia...
- E a vida eterna? – questionou - Se o céu e o inferno só existem na Terra e a vida aqui é finita, então não existe vida após a morte?
- Vida eterna? No seu caso, é ruim, viu! – ironizou Manoel.
- Depende. – explicou João Pedro - A morte pode ou não ser o fim de uma vida. A eternidade existe, mas não do jeito que você imaginava.
- Se não existe céu nem inferno, também não existe eternidade, ora... – retrucou Jó.
- A eternidade é a continuidade da vida de alguém através daquilo que ele deixou como herança para as gerações futuras. – explicou João Pedro. - Caso a pessoa tenha contribuído para que a vida na Terra seja mais céu do que inferno será sempre lembrada com entusiasmo por isto. Caso tenha feito o contrário, poderá até viver por algum tempo na memória das pessoas, mas como uma lembrança ruim, dolorosa.
- Como sei, então, se o que fiz vai ficar ou na memória eterna das gerações presentes e futuras?
- É simples: você ficará diante da sua vida e a sua consciência julgará se em suas ações buscou fazer aos outros tudo aquilo que, no lugar deles, gostaria que fizessem contigo. – explicou João Pedro. - Ao verificar cada situação, sua consciência, que estará sob o critério da honestidade irá apagando da memória tudo aquilo que não era necessário que se fizesse. Cada traço desnecessário será apagado. Caso nada sobre, enfim, isto é o inferno, também conhecido como esquecimento eterno ou lembrança dolorosa.
Jó foi posto frente a sua vida terrena e, a cada traço desnecessário via uma parte sua ser consumida pela borracha consciência. Era penoso ver que, diante de tantas oportunidades, nada havia aproveitado.
Quando já não tinha mais pernas nem braços e a borracha tinha corroído quase todo o seu corpo e aproximava-se em direção a cabeça, consumindo o pescoço, a boca, o nariz, os olhos, ele a viu parar. “Então terei a chance de viver eternamente na memória das pessoas!” – pensou. Mas, era engano. Restava ainda um simples, mas significante traço a ser apagado: a desavença com os sogros. Era sua última cena, seu último segundo de vida. Não teria direito à eternidade. Seu destino era o inferno do esquecimento; o ostracismo eterno. Enquanto a borracha aproximava-se de seu último pedaço, acordou-se aflito com sua esposa chamando-o. 


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*  Capítulos 16 a 19 do romance O SONHO DA CONVERSÃO cuja publicação dar-se-á aqui e no Portal http://www.escritoresalagoanos.com.br/texto/6132 ao longo dos próximos dias.