Corrupção: desvio de conduta ou problema societário?



Valci Melo
valcimelo@hotmail.com


Observando o noticiário escrito e televisivo já há algum tempo, tenho observado que um dos temas mais recorrentes tem sido a corrupção. São casos que envolvem os governantes das variadas esferas político-administrativas (municípios, estados e União), do setor empresarial, da polícia, entre outros segmentos sociais.

De tão frequentes e da forma como são veiculadas, as notícias envolvendo esta problemática nos dão a impressão de que estamos perdidos, pois os corruptos estão por toda a parte, inclusive, no campo da política, sendo o termo corrupção quase sinônimo da palavra política.

Frente a esta situação incômoda, a principal forma de resolvê-la, segundo prescreve o debate majoritário, é endurecendo a legislação e cobrando das pessoas, individualmente, honestidade, pois, em última instância, a corrupção se trataria de um grave desvio de conduta.

Ora, não menosprezando o fato de que a honestidade – e, neste caso, a falta dela - tem seu peso, é importante não ficarmos limitados à superfície deste problema, mas buscar adentrá-lo para alcançar a raiz deste problema. Isto é, se observarmos, todos os casos de corrupção, desde o furar a fila para ser atendido primeiro ao desvio de recursos públicos têm em comum o fato de serem meios de levar vantagem em detrimento dos outros. É claro que com isso não estamos querendo nivelar os tipos de corrupção, mas chamar a atenção para o fato de que eles, independente da dimensão que tomam, têm uma raiz comum que é o individualismo burguês, o “cada um por si”, a prática de que “o mundo é dos mais espertos”.

Assim, inseridos em um tipo de sociedade que valoriza mais o ter do que o ser, no interior da qual o ter é condição indispensável para ser algo, ser alguém, o resultado é o vale-tudo pelo ter, pois as demais pessoas, antes de serem pessoas, são concorrentes.

Por fim, ressaltemos que nem estamos querendo justificar os atos de corrupção, nem tampouco igualá-los, desconsiderando as especificidades de cada situação. Pelo contrário, estamos chamando a atenção para a necessidade de reconhecimento de que não se trata de um simples desvio de conduta, de uma imoralidade, mas sim, de uma prática coerente com o projeto de sociedade em curso, sendo preciso, para o seu real enfrentamento, questionar a própria estrutura social que lhe dá origem e a alimenta.

O BATISMO DAS FESTAS JUNINAS



Valci Melo
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Minha gente preste atenção

Que agora vamos falar

Sobre a festa do São João;

Um evento popular

Que deixou de ser pagão

Quando a Igreja de então

O resolveu batizar.



Na parte Norte da Terra,

Inclusive em Portugal,

Anunciava o Verão

De forma especial.

Competia com o sermão,

Mas a Igreja pôs a mão

E mudou o ritual.



Daí nasceu o enredo;

A festa em tom cristão.

No fim deixaram São Pedro.

No comando São João.

Santo Antônio, sem segredo,

É o mais tímido no folguedo,

Mas do amor é o chefão.



E a gente do Brasil

Como entrou nessa História?

Não moramos na Europa...

Nosso Verão não é agora...

Como o povo descobriu

Esse ritual sutil

Pra celebrar desde outrora?



Foi com a colonização,

Com a invasão portuguesa,

Que aqui chegou o São João,

Como se diz com franqueza.

E com a contribuição

Que recebeu do povão

Tornou-se essa beleza.



Seus símbolos, como sabemos,

Não são usados em vão,

Valem além do vemos,

Pois fazem encenação.

Deles também falaremos

E até explicaremos

A sua definição.


A quadrilha era dançada

Por duas duplas na França,

Por isso era assim chamada.

E eram os ricos na dança...

Aqui ela foi mudada,

Ganhou passos e moçada

E festeja a esperança.



O casamento caipira

Torna o real engraçado:

O noivo bêbado não gira.

A noiva grávida é pecado.

O pai bravo só delira,

O delegado é uma mentira.

E o padre é um depravado.



Já a fogueira sagrada

Relembra um caso fiel:

Dizem que marca a chegada

Do filho de Isabel,

Prima da Abençoada,

A qual ficou informada

Pela fumaça no céu.



As simpatias dão sorte,

Sobretudo, no amor.

As crenças relevam o norte.

As comidas dão sabor

E deixam o povo mais forte.

Já os balões causam morte,

Incêndio e muita dor.



Os fogos dizem que acordam

O dorminhoco João.

Dizem também que eles rogam

Em busca de proteção.

Só sei que eles me incomodam

E que meus gritos não vogam

Diante da tradição.



É este, pois, o São João:

O carnaval do Nordeste!

A festa que o povão

Comemora no agreste,

No litoral, no sertão...

Se foi do Norte, hoje, então,

Pertence ao “cabra da peste”.

PARA ALÉM DAS APARÊNCIAS



Valci Melo, 13 mar. 2015

Companheiros, camaradas,
Leitores, povo em geral;
Vamos refletir um pouco
Sobre o momento atual.

Sei que não é nada fácil
Analisar o momento.
É como trocar a roda
De um veículo em movimento.

Mas registro alguns “palpites”
Sobre esta conjuntura.
Nela me posiciono
Contra a caricatura.

Não vejo risco de golpe
Além do que vem se dando
Contra os trabalhadores;
Seus direitos limitando.

Se a burguesia de fora
Quer retornar para dentro,
Já não é um golpe novo,
Mas só um prolongamento.

É justo ocupar as ruas,
Mostrando indignação.
Mas o risco no momento
É ser “bucha de canhão”.

Seja contra ou a favor
Impeachment é uma ilusão;
Desvia o foco da luta
E mantém a exploração.

O que não se põe à mesa
É que a corrupção
É algo inseparável
Da “ordem da opressão”.

Por isso a luta nas ruas
Precisa ser diferente.
Precisa ter a coragem
De pautar a “ordem vigente”.

Não se trata, a meu ver,
Como se fez na eleição,
De escolher o “menos ruim”
Como falta de opção.

Alternativas existem
E precisam ser pautadas.
Conformar-se com migalhas
É desistir da jornada.

Defendo, sim, a mudança.
Melhor: a transformação.
Por isso, só vou às ruas
Lutar por revolução.

Reformas não me interessam
Como horizonte final,
Pois escondem na mudança
A permanência do “mal”.